sábado, 26 de março de 2016

A PÁSCOA DO POVO DE DEUS


Uma reflexão sobre as origens, significado e prática da Páscoa

Robson T. Fernandes

Vivemos em uma sociedade extremamente consumista. Consumir ovos de páscoa pode ser até 411% mais caro que comprar uma caixa ou uma barra de chocolate (CIAFFONE, 2013). Contudo, ainda assim, o comércio de ovos de chocolate na época da páscoa tem sido aquecido a cada ano, e por quê? Porque a sociedade atual não é apenas consumista, ele tem se tornado materialista. A diferença é que no passado as pessoas compravam muito e usavam o que compravam (consumismo), mas hoje muitas pessoas compram produtos que não precisam, para impressionar a quem não gostam e para pagar com o que não têm (materialismo). E, infelizmente, a igreja da atualidade tem seguido à passos largos na mesma direção. Não é à toa que os chavões evangélicos mais conhecidos são: “Há poder em suas palavras”, “declare”, “ordene”, “decrete”, “você nasceu pra ser cabeça e não cauda”, “o homem sonha e Deus realiza”, “você pode ter tudo o que quiser”, etc.

Por outro lado, além do materialismo e consumismo, a sociedade é levada de um lado para outro de acordo com a tendência do momento sem nem ao menos questionar ou pensar sobre as origens e as consequências de certas práticas. E, mais uma vez, infelizmente, a igreja da atualidade continua seguindo na mesma direção. Então, raciocinando sobre isso nos perguntamos: Por que o coelho é utilizado como símbolo da páscoa? Por que o ovo de chocolate está associado com o coelho, se coelhos não põem ovos? E se coelhos pusessem ovos será que seriam de chocolate? Certamente não. Diante disso, surge o questionamento: Quais as origens dessa páscoa comemorada hoje?

A ORIGEM DO OVO

O ovo tem sido encontrado em muitos sepulcros pré-históricos da Rússia e Suécia, como símbolo de imortalidade. Nos hieróglifos egípcios, e na cultura egípcia, onde é mais frequente, o ovo simboliza o potencial e o germinar de uma geração, o mistério da vida. Os alquimistas continuam mantendo esse mesmo significado simbólico para o ovo. Daí, surge a ideia do “ovo cósmico” que é a origem de todas as coisas, inclusive do Buda (ELIADE, 1979, p.76). Os chineses acreditavam que o primeiro homem havia nascido de um ovo. Então, a simbologia do ovo vem desde essas tradições religiosas até a Índia e os druidas.

Na China coloriam-se ovos de pata para celebrar a vida. No Egito, Pérsia, Grécia e Roma coloriam os ovos e presenteavam os amigos em comemoração pela chegada da primavera, simbolizada pela deusa da mitologia germânica Eastra, representada por uma lebre (CIRLOT, 1992, p.244).

Após o século XV, foram introduzidos através dos missionários católicos e dos cruzados que trouxeram tais práticas do Oriente, pintando os ovos de vermelho, para simbolizar o sangue e a tumba de Cristo. No século XVII, começaram a produzir ovos de plástico recheados de chocolates. E só na década de 1950, surgiram os famosos ovos de chocolate. Por isso, “o ovo da páscoa é um emblema da imortalidade que sintetiza o espírito de todas estas crenças” (CIRLOT, idem).

Por outro lado, saber sobre a origem dos ovos de páscoa não significa que tais ovos serão prejudiciais se consumidos, porque “se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta” (1Co 8:8), e a comida “pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1Tm 4:5). A questão não está no ovo de páscoa por si só, mas naquilo que ele simboliza. Sabemos que atualmente o ovo de páscoa não é utilizado como um meio de adoração às divindades pagãs do passado, mas como uma fonte de manutenção do consumismo e materialismo. É aqui que se faz o primeiro destaque: O consumismo e o materialismo são duas divindades modernas em nossa sociedade, associadas simbolicamente com Mamon[1]. O segundo, e mais importante destaque, é que o ovo não possui nenhuma representação bíblica relacionada com o verdadeiro significado da Páscoa, como veremos mais adiante.

A ORIGEM DO COELHO DA PÁSCOA

A deusa Eostre, símbolo do renascimento, fertilidade e deusa da primavera, na mitologia babilônica, era conhecida também como Ishtar. Talvez venha daí o termo páscoa, em inglês, Easter. Acredita-se que na mitologia celta “o totem da deusa, a lua-lebre, punha ovos para as crianças comportadas comerem [...] a lebre da Páscoa era a forma como os celtas imaginavam a superfície da lua cheia” (INGRAHAM, 2000, p.10).

De acordo com os hieróglifos egípcios, a lebre simbolizava a essência da existência. Entre os gnósticos simbolizava um demiurgo, uma divindade má, dentre as três divindades acreditadas. Na mitologia grega e entre os germânicos estava relacionada com a lua (CIRLOT, 1992, p.278).

Inicialmente, o coelho da páscoa era uma lebre, oriunda dos anglo-saxônicos, que a tinham como o símbolo da abundância de vida. Para os povos antigos, o coelho representava a lua, que saía da escuridão da lua nova até o brilho da lua cheia, sendo no passado mitológico um belo pássaro que pertencia à deusa Eostre e que transformou-se em coelho, mas que continuou com sua essência interior de pássaro. Por isso, continuou enchendo os ninhos de ovos. Daí a associação do coelho com os ovos de páscoa. Por isso, Vine (1999, p.1137) faz o seguinte comentário:

A Festa da Páscoa, celebrada pelos cristãos nos tempos pós-apostólicos, era uma continuação da festa judaica, mas não foi instituída por Cristo, nem estava relacionada com a quaresma. A festa pagã em honra a deusa da primavera, Eostre (outra forma do nome Astarte, um dos títulos da deusa caldeia, a rainha do céu), era completamente diferente da Páscoa; porém, a festa pagã foi introduzida na religião apóstata ocidental, disfarçada de “páscoa”, como parte da intenção de adaptar as festas pagãs no seio da cristandade. Por isso, recebe o nome de Easter (Páscoa) em inglês, derivado de Eostre, o que evidencia a verdadeira origem pagã da chamada “Páscoa Cristã”, que não coincide com tempo da Páscoa judaica.

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PÁSCOA BÍBLICA

Depois de 430 anos de escravidão no Egito, Deus liberta os hebreus após as dez pragas do Egito, e passam a comemorar a festa da páscoa, instituída por Deus para aquele povo, em comemoração a este feito (Ex 12:26,27), chamando-a de Pessach (x;s,P), que significa “passar sobre” ou “passar por cima”, em alusão a Êxodo 12:13. A páscoa, instituída pelo Senhor, tinha a finalidade de fazer com que os hebreus lembrassem da vida de escravidão e da tão grande libertação que o Senhor lhes deu.

Podemos observar que todos que participaram da páscoa estavam em obediência e submissão. Eles estavam “prontos”. Realizaram a páscoa com temor, reverência, obediência, respeito e educação. Posteriormente, o apóstolo Paulo repreende os coríntios por não fazerem o mesmo na Ceia do Senhor (1Co 11:17-22).

A ordem do Senhor, para os hebreus, foi para a páscoa ser comemorada no dia 14 do mês de abibe (nisã), pois foi este o dia em que os hebreus saíram do Egito. Ainda, deveria ser comemorada durante sete dias e deveria ser destituída do fermento, que representa o pecado, a impureza (Lv 2:11). A festa, ainda, deveria ser comemorada com o pão asmo, pois sabemos que este representa a sinceridade e verdade (1Co 5:7,8). Por último, encontramos as ervas amargas, o cordeiro pascal e o sangue. As ervas, para lembrar da amargura da escravidão; o cordeiro, para ser comido por todos sem que nenhum pedaço sobrasse (Ex 12:4), simbolizando a remissão de pecados e a morte do cordeiro que é suficiente para todos; e o sangue, que deveria ser passado nos umbrais (ombreira, soleira) das portas (Ex 12:7), que simbolizaria a proteção Divina sobre aqueles.

Ao celebrar a última páscoa antes da crucificação, Jesus Cristo realizou algumas mudanças e “adaptações” da tradicional festa, cumprindo o significado da páscoa em Si mesmo.

Algumas expressões e figuras utilizadas no Antigo Testamento, apontavam para a pessoa de Cristo e Seu sacrifício. Por exemplo: enquanto as ervas amargas, na páscoa, simbolizavam a amargura da escravidão, na Ceia, simbolizam a amargura da traição (Jo 13:18; Sl 41:9); enquanto o pão asmo, na páscoa, simbolizava a dureza do Egito e saída às pressas (Dt 16:3), na Ceia simboliza o corpo de Cristo (Mt 26:26; 1Co 11:24); enquanto, na páscoa, o sangue simbolizava a segurança contra a morte (Ex 11:6,7, 12:7), na Ceia simboliza a remissão de pecados representado pelo vinho (Mt 26:27,28; 1Co 11:25); enquanto, na páscoa, o cordeiro simboliza a remissão de pecados trazida através do sacrifício de um ser inocente, macho, sem mácula, sem nenhum osso quebrado (Ex 12:5,6,46), na Ceia simboliza o próprio Jesus Cristo que foi entregue à morte por nossa causa (Jo 1:29). Com isso, temos a adaptação da páscoa judaica para a Igreja, denominada de Ceia do Senhor.

Existem consequências espirituais ao celebrarmos a Ceia do Senhor e estas podem ser benéficas ou não, dependendo do nosso entendimento, atitude e situação espiritual, pois a Ceia é:

1)   Momento de recordação do que Ele fez por nós. Jesus Cristo disse isso em Lc 22:19, pois a Ceia é um memorial, ou seja, um momento no qual lembramos do sacrifício de Cristo em nosso lugar;

2)   Anunciação de Sua morte. Paulo disse isso em 1Co 11:26, que completa o 1º ponto, pois não só devemos lembrar do que Cristo fez, mas devemos anunciar que o Senhor se entregou por nós;

3)   Um ritual de aliança. Paulo ensinou isso em 1 Co 6:17, pois temos uma aliança com o Senhor e, por isso, estamos moldados ao Senhor, unidos, juntos e incorporados. Simbolicamente, a Ceia reafirma essa aliança;

4)   Um tempo de comunhão. Em 1 Co 11:33 o apóstolo Paulo revela outro significado da Ceia, que é o sentido de comunhão. Ou seja, tudo em comum. Judas chama de festa do amor (Jd 12), a festa do amor de Deus, o amor ágape;

5)   Um ato de consequências espirituais. A Ceia é um momento de consequências espirituais, boas ou não. É um momento de bênção ou de castigo. Bênção porque Paulo ensinou em 1Co 10:16 que “o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?”. Estamos identificados com Cristo, unidos com Ele, recordando e anunciando o que Ele fez, e recebendo as bênçãos oriundas Dele. Por isso, a Ceia do Senhor, é o momento no qual reafirmamos isso tudo, renovando a aliança publicamente. Maldição porque “quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1Co 11:29). Ou seja, muitas pessoas podem ficar doentes e até mesmo chegar à morte prematura por participarem da Ceia do Senhor de forma indigna. Em 1Co 11:28, o apóstolo ensina que aquele que participa da Ceia deve examinar a si mesmo, e não os outros.

O momento da Ceia é decisivo na vida de um cristão, porque naquele momento chega a hora de decidir se participará da Ceia, arrependendo-se de seus pecados e abandonando-os, ou se continuará com o pecado e abandonará a Ceia do Senhor. Não é hora de deixar de participar da Ceia por causa do pecado, é a hora de deixar o pecado por causa da comunhão com Cristo.

Por isso, é necessário entender que o misticismo da antiguidade vem permeando a sociedade moderna, no intuito de distorcer o verdadeiro sentido da Páscoa para o cristão, que é a Ceia do Senhor, e que tem por finalidade trazer a consciência da morte de Cristo e sua consequente ressurreição, através da celebração da Ceia que nos faz recordar, anunciar, renovar a aliança, proporcionar comunhão e produzir consequências espirituais.

Dessa forma, não há proibição alguma para que se comemore a Páscoa, desde que seja feita nos moldes bíblicos, o que exclui o coelho e os ovos de chocolate, que não possuem nenhuma relação com a Escritura, e sim com o paganismo. Então, os cristãos deveriam aproveitar essa época do ano e fazer a coisa certa, proporcionando um jantar entre irmãos, com comunhão, Ceia e louvor a Deus. Deveriam proporcionar uma verdadeira festa ágape, a festa do amor de Deus entre os irmãos.



[1] O termo Mamon, encontrado na Bíblia, é utilizado para descrever a riqueza material ou ganância. A palavra, originária do hebraico mamom (!Am'm), significa literalmente dinheiro.



Referências Bibliográficas:

CIAFFONE, Andréa. Preço do Ovo de Páscoa é 411% mais caro que chocolate em barra. Disponível em: <http://www.dgabc.com.br/News/6017221/preco-do-ovo-de-pascoa-e-411-mais-caro-que-chocolate-em-barra.aspx>. Acesso em 10 abr 2013.

CIRLOT, Juan-Eduardo. Diccionario de Símbolos. Barcelona: Editorial Labor, 1992.

ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos. Lisboa: Editorial Minerva, 1979.

INGRAHAM, David. Pagan Traditions of the Holidays. Oklahoma City: Hearthstone Publishing, 2000.

VINE, W. E. Vine Diccionario Expositivo de Palabras del Antiguo y del Nuevo Testamento Exhaustivo. Nashville: Editorial Caribe, 1999.